Escrevo hoje pelo dia de ontem - já agradeço por poder escrever sobre ontem, assim de cara. Pois vou escrever sobre ontem, o dia em que acordei para ir ao centro - pois moro no interior - para cortar o cabelo e depois passar numa loja e trocar um sapato. Ontem, depois de voltar do centro, eu ia lavar minha moto, que havia pego na autorizada na sexta-feira - esta suja já de semanas e merecia uma boa lavada.
Ontem, depois de lavar a moto, ia pôr no papel a atividade de sábado nos escoteiros, para onde iria depois de almoçar. Voltaria dali duas horas e meia, tomaria um banho, faria a barba e teria talvez um momento de ócio. Ficaria brincando no celular, rabiscando coisas para a atividade de domingo, enfim... faria o tempo passar até mais tarde, quando me encontraria com um amigo para elaborar um dos jogos de domigo - também para os escoteiros.
A namorada havia combinado com uma amiga para irem à pastelaria - pois eu estaria ocupado na noite de ontem. E, depois desse dia cheio, precisamente nesta hora, eu estaria deitado em minha cama, dormindo.
Quis porém o dia de ontem tomar outro rumo - e porque não? - rumo este que resolveu mudar quando saí de moto para cortar o cabelo e trocar o sapado, no exato momento em que convergi em uma rotatória, no instante em que olhava para o lado de onde poderia vir algum carro - para certificar-me de que não vinha nenhum - segundo e meio depois, em que acelerei a moto e olhei para a frente, para onde eu ia - pegar a antiga RS122 e - neste momento - vi, saíndo do lado de onde nada poderia sair, um ciclista. Tentei e não consegui. Soube mais tarte que ele tentou e, também não conseguiu. Antes de cortar o cabelo e trocar o sapado, bati em um ciclista, me esborrachei com a moto, quebrei os dois alertas, entortei o estribo que havia posto novo na sexta, arrebentei o joelho - o mesmo joelho que arde agora e que vai dificultar as coisas hoje pela manhã quando eu acordar.
E o ciclista? Tanto rezo quanto penso que agora deva estar bem. Machucou muito o ombro. Estava imobilizado na maca no último momento que o vi, quando troquei algumas palavras cordiais com ele, logo depois do que saí mancando do hospital. O que ele tinha planejado para seu sábado? Não sei. Só sei que a gente às vezes fala com o olhar perdido das pessoas que cruzam nossos caminhos durante a vida... puta que pariu! Não precisam cruzar de bicicleta na minha frente!!!